O mercado não tem picuinha

Que fazer previsões não é nenhum passeio todo mundo sabe, ainda mais em uma economia volátil como a brasileira. Porém, atribuir erros de previsão à uma briga do mercado contra o governo beira ser uma teoria da conspiração — no sentido literal da coisa.

Para que haja de fato uma torcida contra o governo, com sugeriram vários artigos às vésperas do Natal e do Ano Novo, as previsões têm de ter um erro sistemático do mercado como um todo, e não apenas erros da previsão média (ou mediana). Apesar de, sim, os dados de expectativas médias poderem ser lidos como sinais de otimismo ou pessimismo sobre a situação do país, uma análise justa sobre as previsões tem de também levar em consideração ao menos a discordância1 entre os entrevistados.

Os dados trimestrais do PIB mostram que, na verdade, é incomum o mercado como um todo errar sistematicamente. Ao considerar a banda total de opiniões, verificam-se poucos períodos de erros consistentes (nos arredores da crise financeira de 2008 e no período pós-pandemia, começando em 2021). Não aparenta haver nenhum tipo de viés contra qualquer presidente em específico desde 2016. Olhando para a inflação mensalmente, há menos evidência ainda. Caso o mercado de fato jogasse contra o governo para influenciar políticas econômicas (principalmente a monetária), nós veríamos padrões de erros persistentes na direção que mais conviesse.

Os dados anuais, seguindo a lógica de pegar as expectativas no primeiro dia útil, mostram uma figura similar: não existem alguns períodos viés sistemático contra algum governo, uma vez que a conjuntura tenha sido levada em conta.

Primeiro, vemos um leve viés negativo contra os governos na segunda metade do governo Lula 1, porém isso é marcado pela saída do então Ministro Antônio Palocci Filho (que foi chave em manter a economia nos eixos durante a transição FHC-Lula). Os erros de previsão durante Lula 2 são certamente marcados pela crise mundial do subprime.

Segundo, há vieses positivos durante os governos Dilma 1 e 2, indo diretamente contra a ideia de uma torcida contra governos mais à esquerda. Vale ressaltar que a doutrina da Nova Matriz Econômica operava a todo vapor durante o primeiro governo Dilma. O esgotamento do modelo ainda manteve o mercado esperançoso com a Fazenda sendo liderada por Joaquim Levy, que à época deu um alívio ao mercado mesmo sabendo-se que nem tudo o que foi prometido seria levado a cabo.

Terceiro, apesar do otimismo inicial no governo Bolsonaro, o pessimismo também rondou já em 2022. Considerando que as expectativas mostradas acima são do início do ano, que era ano eleitoral, e que candidatura de Lula deu-se somente em julho, até poderia-se argumentar que mercado jogou contra o governo ali — claro, apenas no caso que o então presidente fosse outra pessoa, mantendo o resto constante.

É difícil sustentar o ponto de que o mercado age contra governo tendo isso em vista. Considerando ainda que o Partido dos Trabalhadores governou por 17 dos últimos 23 anos, a tese de que o mercado tenha qualquer picuinha contra o governo de maneira sistêmica cai água abaixo.

  1. O Federal Reserve de Nova Iorque publicou um artigo interessante sobre discordância e sobre incerteza [Link] ↩︎

Comentários

Deixe um comentário